Log in

Quando a política precisa sempre de inimigos

Márcia Pimentel
Técnica Auxiliar de Saúde
Estudante do 2.º ano da Licenciatura em Serviço Social

Nos últimos dias, a propósito da greve geral e da contestação às alterações à lei laboral, voltámos a ouvir um tipo de discurso político que merece que paremos para pensar. Não falo apenas da discordância em relação à greve. Discordar é legítimo. Numa democracia, cada pessoa tem o direito de apoiar, criticar ou questionar uma forma de protesto. O problema começa quando a discordância deixa de ser debate e passa a ser uma tentativa de fazer parecer suspeito aquilo que é um direito.

Quando os sindicatos são comparados a estruturas criminosas, quando os trabalhadores em greve são apresentados como se estivessem a prejudicar o país só porque apeteceu e era véspera de feriado, ou quando a contestação social é tratada como uma ameaça, há uma pergunta que se impõe: que ideia de democracia está por trás deste discurso?

A greve não é um favor concedido pelo poder. É um direito constitucional. Existe precisamente porque, ao longo da história, os trabalhadores perceberam que, sozinhos, tinham pouca força perante patrões, governos e decisões económicas que quase sempre acabam por pesar sobre quem trabalha. A greve incomoda, sim. Interrompe rotinas, cria pressão, obriga a olhar para problemas que muita gente preferia não ver nem discutir. Mas é exatamente por isso que ela existe. Um direito que só pudesse ser exercido sem incomodar ninguém seria apenas uma promessa vazia.

Podemos discutir se uma greve é oportuna. Podemos discutir os seus efeitos. Podemos até discordar da estratégia sindical. Mas uma coisa é discutir; outra, bem diferente, é transformar sindicatos em inimigos públicos. Os sindicatos são organizações reconhecidas numa sociedade democrática. Têm defeitos, como todas as instituições humanas. Podem e devem ser criticados. Mas não podem ser tratados como uma ameaça criminosa só porque contestam medidas políticas que são visivelmente prejudiciais para todos os trabalhadores.

E é aqui que a questão se torna mais séria. Esta forma de fazer política não é inocente. E são quase sempre os mesmos discursos, já nossos conhecidos, que parecem precisar de um inimigo para existir. Nunca há problemas complexos a analisar com calma. Nunca há desigualdades sociais a discutir com profundidade. Nunca há escolhas políticas a explicar. Nunca há responsabilidades a assumir. Há sempre alguém para culpar: os sindicatos, os trabalhadores, os professores, os funcionários públicos, os imigrantes, os beneficiários de apoios sociais, os jornalistas, os ativistas, a esquerda, quem protesta, quem discorda, quem não se cala.

Talvez devêssemos perguntar com mais frequência: qual é o objetivo de uma política que raramente procura pontes e quase sempre aponta culpados? A quem serve transformar cada conflito social numa guerra moral? Quem ganha quando os trabalhadores deixam de se reconhecer uns nos outros e passam a olhar com desconfiança para os seus próprios instrumentos de defesa?

Ao chamar privilégio a um direito constitucional, ao chamar bloqueio ao que é participação cívica, ao chamar ameaça ao que é contestação social, foge-se ao que realmente devia estar em discussão. Em vez de falarmos sobre precariedade, salários, horários, despedimentos, conciliação entre vida profissional e vida familiar, segurança laboral ou dignidade no trabalho, ficamos presos ao ruído das palavras que mais parecem gritos de guerra. A política deixa de procurar soluções e passa a alimentar ressentimentos.

Nos Açores, há demasiada gente que trabalha muito e, ainda assim, vive sempre no limite: baixos salários, rendas cada vez mais pesadas, contas que não esperam e uma pobreza que continua a marcar a vida de muitas famílias. Numa realidade assim, atacar a greve é, no fundo, pedir silêncio a quem já não tem voz.

É importante dizê-lo: os direitos laborais não caíram do céu. Foram conquistados. A jornada de trabalho, as férias, os subsídios de férias e Natal, os descansos, a proteção na doença, os contratos, a negociação coletiva e o direito à greve resultam de lutas sociais concretas. Houve quem perdesse emprego, salário, liberdade e até a vida para que hoje muitos considerem “normal” aquilo que antes parecia impossível. Por isso, quando alguém tenta ridicularizar ou criminalizar a luta laboral, não está apenas a comentar uma greve. Está a mexer na história democrática do país.

O perigo deste discurso não está apenas no exagero das palavras. Está na tentativa de habituar a sociedade à ideia de que quem reivindica direitos é suspeito, quem protesta é obstáculo e quem discorda é inimigo. É difícil não ouvir ao longe o eco da velha senhora. 

Não precisamos de concordar todos com a mesma greve, com o mesmo sindicato ou com o mesmo partido. Mas precisamos de defender um princípio básico: numa sociedade democrática, trabalhadores organizados não são criminosos, sindicatos não são inimigos e a greve não é chantagem. É uma forma legítima de dizer que há limites, que há direitos e que o trabalho humano não pode ser tratado como uma peça descartável da economia.

É importante refletir sobre o país que queremos construir: um país onde os problemas sociais são discutidos com seriedade, ou um país onde se procura sempre um inimigo para distrair daquilo que realmente importa?

Porque quando a política precisa sempre de inimigos, talvez o verdadeiro problema não esteja nos que protestam. Talvez esteja nos que não sabem governar sem dividir.

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

CAPTCHA ImageCambiar Imagen