
Alexandra Manes
No mesmo ano, em que se comemoram os 50 anos da nossa Autonomia, celebramos os 50 anos da Universidade dos Açores, uma conquista da Democracia e da Autonomia, da qual é essencial destacar o seu papel determinante para a nossa região, bem como a excelência do seu corpo docente, cujo seu maior desafio se prende com o carácter da sua tripolaridade.
Ao longo das últimas décadas, assistimos ao esvaziamento do Polo de Angra do Heroísmo com a saída de cursos como o de Educação Básica e seu mestrado e o de Gestão, este último bastante contestado. O de enfermagem, vai resistindo… Pelo Faial, houve a possibilidade de o curso de Ciências do Mar ser deslocalizado para Ponta Delgada, mas, devido a questões óbvias e à luta de docentes e investigadores(as), resistiu ao processo de contenção de custos e está onde deve estar e que, embora com pouco, produz Ciência reconhecida a nível mundial.
Foi neste contexto de celebração, que fui alertada para a realidade, que afeta a vida de muitas pessoas, mesmo sendo facilmente varrida para debaixo do tapete quando é tempo de discursos e frases feitas. Numa Região, cada vez mais dividida, há atitudes e estratégias de gestão que se refletem na falta de coesão, e que são menos notadas, todavia, igualmente sentidas pela população residente. É importante que se assuma o facto de que, de forma sistemática e propositada, a academia insular parece ter esquecido a sua raiz tripartida, cimentando-se em torno de um modelo de centralização, anacrónico, que não pode ser ignorado.
Na verdade, em pleno séc. XXI, com ferramentas proporcionadas pela evolução tecnológica, a Uaç contraria a coesão que se exige num território descontínuo e disperso, pela falta de resposta consistente no E-learning, impossibilitando a frequência, por exemplo de Mestrados, a pessoas de outras ilhas. Bem sei que esse impedimento resulta, não somente da concentração de respostas em Ponta Delgada, mas, também, da exigência de regras de acreditação de cursos oferecidos nessa modalidade pela agência A3ES. No entanto, cedemos a essas dificuldades ou esforçamo-nos para ultrapassar esse obstáculo?
Susana Mira Leal foi reeleita por maioria, por lista única. A nova e antiga reitora voltou a sublinhar querer diversificar e descentralizar a instituição, com maior abertura de cursos e modalidades digitais e híbridas. Só que bastará a qualquer possível aluna ou aluno uma breve consulta das normas institucionais e regulamentares em vigor, para perceber que uma boa parte do funcionamento da UAç vive impedido de funcionar à distância. Qualquer pessoa adulta, sob o Estatuto Trabalhador-Estudante, que almeje realizar um mestrado ao longe, terá que se preparar para duras provas.
Claro que restam sempre hipóteses funcionais para quem segue a teoria do empreendedorismo sem razão. Demissão e alterar a residência fiscal, seguir os percursos académicos da Aberta, ficando limitados às respostas. Ou não estudar, e deixar-se estar caladinhas e subservientes, que é como o sistema gosta. A decadência deste modelo é mais uma prova silenciosa do estado a que este Estado chegou. Vivemos a medo, sem saber como avançar, sempre retidos por algemas invisíveis, da centralização, do capitalismo e do absurdismo de aceitar que a aposta na valorização académica é só para algumas pessoas. Quebrar o ciclo da pobreza estrutural dos Açores passa pela Uaç, mas não podemos aceitar que para a frequentar, sejamos potenciais números nas estatísticas da pobreza.
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