
Maria Chaves Martins
Licenciada em Direito
Outubro marca o fim da época tauromáquica, sendo importante fazer uma retrospetiva dos eventos tauromáquicos, sobretudo quando foram denunciados vários atropelos ao bem-estar animal, fruto das touradas à corda.
Desengane-se aquele que acha que a tourada à corda não provoca sofrimento animal. Todavia, a tourada à corda, propriamente dita, é precedida de uma panóplia de eventos que se pautam por atos que impelem dor ou sofrimento nos animais, sejam eles de que idade for. Por exemplo, a identificação dos bovinos de tenra idade com recurso à utilização de ferros em brasa. Haverá prática mais sádica? Como é possível afirmar que o animal não sente dor? Qual o preço do sacrifício animal a troco do cruel entretenimento de alguns?
O fatídico episódio dos touros na Agualva – em que quatro touros de lide padeceram durante uma tourada à corda no mês de Agosto, é uma evidência do sofrimento a que os animais utilizados pela atividade tauromáquica estão sujeitos. Esse episódio não é isolado, mas destaca-se pela consternação social que causou.
O PAN/Açores bem andou ao indagar o Governo sobre o sucedido. Mas o Governo apressou-se a responder dizendo que não tem conhecimento sobre os factos, imputando a responsabilidade ao tutor dos animais, escondendo-se num quadro legislativo dúbio, um fato à medida do lobby instalado.
A falta de transparência da atividade vem demonstrar a urgência de se alterar o quadro normativo regional e de aumentar a fiscalização da atividade que sobrevive à custa do sofrimento animal e do erário público. Isto caso não se coloque, imediatamente, termo à atividade tauromáquica, pois é essa a meta do caminho que está a ser feito.
Mas que sentimento nos desperta a morte dos animais que sofreram durante largas horas até, por fim, sucumbir ao sofrimento impelido às mãos daquele que era seu cuidador e que foi, em última linha, o responsável por determinar a sua morte?
Para muitos, a morte de um animal é a única experiência de luto ligada à eutanásia. No entanto, a sociedade tem alguma dificuldade em aceitar este luto, descredibilizando-o. É a marginalização do luto, fruto do fracasso da empatia humana.
Essa marginalização ou descredibilização ficou latente aquando da apresentação do voto de pesar do PAN/Açores pelos animais que padeceram nesta época tauromáquica, com especial enfoque no episódio da Agualva.
Foram várias as bancadas parlamentares que se levantaram para vociferar que os animais não são merecedores de um voto de pesar, que esta figura regimental não deve ser utilizada para os animais. Transparecendo a ideia de que a utilização desse mecanismo para os animais humilha a casa da democracia.
Mas um voto de pesar é um voto de luto, não tem critérios objetivos, salvo empatia ou compaixão.
Até onde vai a hipocrisia do argumento quando um dos mais altos símbolos dos Açores – o brasão de armas, tem dois touros acompanhados da frase “antes morrer livres que em paz sujeitos”. Os animais presentes no brasão elevam a nossa açorianidade, são motivo de orgulho. Mas q.b.? O que envergonha é a forma como (des)tratamos os animais, não o luto.
Será o conjunto de elementos, que compõem o brasão, um agouro do fim da crueldade animal nos Açores?
O que pesou nesse voto foi o malabarismo de raciocínio dos intervenientes para retirar o foco da violência praticada contra os animais na tauromáquica. Assumir o voto, era assumir a violência da tauromaquia e o lobby não permite.
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